Thiago Falcão, Universidade Federal da Paraíba
Daniel Marques, Universidade Federal do Recôncavo da Bahia

Editores convidados

O jogo assumiu contornos insidiosos na contemporaneidade: bets, cassinos virtuais e plataformas de apostas reorganizaram a percepção de seu aspecto pueril, ao mesmo tempo em que popularizaram sua faceta mais temida, a do azar como risco calculado, da captura afetiva e da adicção oportunizada por artefatos projetados para tal, sob a aparência desinteressada do lúdico. Sua condição episódica foi reconfigurada para uma de engajamento contínuo e ininterrupto; sua lógica adquiriu um princípio de financeirização difusa no qual a experiência cotidiana assume um fluxo permanente de exposição ao risco, cálculo e promessa de retorno. O jogo foi convertido em artefato concreto de exploração, agenciando uma cultura na qual a aposta é enquadrada por meio de dispositivos sociotécnicos e narrativas de plataforma como investimento possível, imbricando-se às práticas de lazer, à sociabilidade digital, às formas de negociar o presente e de imaginar o futuro.

Sua infraestrutura do encantamento – fundada na suspensão, na incerteza, na gratuidade e no tempo não produtivo – foi esquecida. Em seu lugar, interfaces maliciosas e dispositivos de design persuasivo organizam experiências orientadas por métricas. A lógica do “quase ganho”, dos loops de recompensa variável e da aceleração decisória transforma o tempo livre em performance financeira, convertendo atenção, afeto e expectativa em valor.

Esse processo não se limita à esfera econômica: a financeirização do impulso lúdico produz efeitos profundos, que vão desde a proliferação do endividamento compulsivo entre populações vulneráveis, passam pela erosão da autonomia por meio de interfaces que modulam afetos abaixo do limiar consciente e produzem uma naturalização do risco. Essa racionalidade, ao capturar atenção e tempo, em última instância replica e aprofunda desigualdades sociais, ao estender ao campo do entretenimento dispositivos simbólicos e sociotécnicos análogos aos que estruturam o trabalho plataformizado. A aposta, assim, é narrada como forma de empreendedorismo acessível, flexível e meritocrático, enquanto produz regimes de instabilidade, endividamento e responsabilização individual que convertem o jogo em vetor de precarização subjetiva e coletiva.

O eixo central desta chamada é a investigação das arquiteturas contemporâneas do jogo, de sua financeirização e das plataformas digitais de apostas como um fenômeno estrutural e multidisciplinar, no qual o design ocupa um papel transversal. Entendido como mediação tecnopolítica, o design atua na organização de condutas, na fabricação de ambientes de decisão e na modulação de estados afetivos, em articulação com modelos de negócio financeirizados, mediações algorítmicas, regimes regulatórios e narrativas midiáticas. Convidam-se contribuições teóricas e empíricas que analisem, de forma integrada, as economias políticas do mercado digital de apostas, bem como os paralelos entre apostas, gamblificação e trabalho plataformizado, evidenciando a produção de imaginários de empreendedorismo de si e ascensão social que naturalizam a transferência de risco e operam processos de precarização subjetiva. São igualmente bem-vindas análises sobre regimes de dataficação e mediações algorítmicas (como a coleta e monetização de dados comportamentais, a personalização de ofertas e a opacidade informacional), assim como investigações que discutam os marcos regulatórios e as políticas públicas do setor, suas disputas e assimetrias, bem como as dimensões culturais, midiáticas e éticas das plataformas digitais de apostas, incluindo publicidade, influenciadores, esportes e e-sports, imaginários de sucesso e redenção atravessados por classe, raça, gênero e faixa etária, e os impactos psicossociais da adicção e do endividamento sobre populações vulneráveis.

O dossiê acolhe contribuições que abordem, entre outros temas, os seguintes eixos centrais:

  1. Economia política das apostas e financeirização do cotidiano, englobando:
  • jogo, apostas e financeirização do cotidiano e do lazer;
  • modelos de negócio e economia política das plataformas de apostas;
  • relações entre plataformas digitais de apostas e mercados financeiros;
  • paralelos entre apostas, gamblificação e trabalho plataformizado;
  1. Infraestruturas digitais, dados e opacidade algorítmica 
  • dataficação, coleta, modelagem e monetização de dados comportamentais;
  • opacidade algorítmica e assimetrias informacionais;
  • plataformas digitais e suas infraestruturas técnicas;
  1. Design de plataformas, atenção e regimes de engajamento
  • design persuasivo, dark patterns e arquiteturas da decisão;
  • captura afetiva, economia da atenção e regimes de engajamento;
  1. Cultura, mídia e imaginários das apostas
  • publicidade, influenciadores e espetacularização das apostas;
  • esportes, esports e a naturalização das apostas;
  • masculinidades, ideologias e os imaginários da aposta;
  • infância e imaginários da aposta;
  1. Desigualdades sociais e impactos sociopolíticos
  • classe, raça e gênero e efeitos culturais e políticos das apostas;
  • adicção, endividamento e impactos psicossociais;
  1. Regulação, ética e políticas públicas
  • plataformas, regulação, ética e políticas públicas;
  • marcos regulatórios nacionais e internacionais;
  • limites e contradições das políticas de “jogo responsável”;
  1. Resistências, fricções e alternativas
  • alternativas críticas, fricções e contradesign.

As submissões estarão abertas até 3 de agosto, com publicação em dezembro. Os artigos devem seguir modelo para submissão e as normas editoriais da Revista Alceu​​.